Qualquer semelhança é mera coincidência: entre os mundos dos Flinstones ao mundo dos Jetsons a partir da compreensão de Bauman e Santaella.

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Já não nos é novidade que os desenhos animados de Willian Hanna e Joseph Barbera, Flinstones e os Jetson representam modelos técnicos e porquê não também econômico. Porém, apresento uma outra leitura a partir das minhas perspectivas compreensivas de Bauman e Santaella.

Os Flinstones e os Jetsons ganharam o mundo na década de 1960, período em que passávamos pela Guerra Fria, onde os paralelismos dicotômicos no mundo ganham maior força e projeção, sobretudo com as referências política, social e econômica do Socialismo e Capitalismo, ou se quisermos territorializar, Estados Unidos versus União Soviética. Tal dicotomia contextualizada no cenário da Guerra Fria foi bastante retratada pela mídia televisiva norte americana de entretenimento através dos desenhos animados, sendo os EUA representado pelos Jetsons e o seu capitalismo de poderio tecnológico futurista e bem estar social; e a União Soviética representada pelos Flinstones e o modelo socialista de tecnologia arcaica.

Os Jetsons nos encanta pelo seu vislumbre técnico e prático. Nessa perspectiva caminhamos para a criação de artefatos tecnológicos com conceitos muito parecidos com os quais vivíamos anteriormente. Na verdade, houve uma aperfeioçamento no desenvolvimento desses artefatos tecnológicos. Nos Flinstones o carros se moviam com as pernas do motorista, já nos Jetsons o carros voavam. A tecnologia vista nos Flinstones eram feitas de pedras e precisavam do auxílio humano no sentido de força braçal para funcionarem, todavia nos Jetsons tudo era automatizado e acionados sem muito esforço através de cliques nos botões.

É preciso destacar neste caso, que ambos os desenhos retratam os mesmos modelos familiares, no qual possuem animais de estimação, mães cuja tarefa é o cuidado exclusivo dos filhos e da casa, e pais que desempenham a atividade remunerada. No âmbito das relações sociais com os vizinhos e amigos são bem similares. No entanto, o grande diferencial está no uso e domínio dos objetos e técnicas, uma vez que se considera a técnica como um dos principais elementos de constituição do homem, da máquina e de uma sociedade em suas relações, sendo ela afinal “o signo atual de nossa relação com o mundo e o modo como a sociedade contemporânea se articula”. (POSSOMAI, 2010, p.21).


Bauman nos apresenta um conceito de sociedade baseada em modelos ou estilos de vida a partir do que nos é imposto pelo paradigma capitalista, diferente daquilo que antes era herdado e adquirido com os antepassados. Agora, do nosso vazio criativo nos preenchemos de um referencial de vontades, gostos e identidades generalizados socialmente. Tal tipo de modelo geral, variando entre uma produção em massa e uma produção personalizada que envolve indústria cultura e de consumo, induz aos desejos e impulsos do consumo, naquilo que é mais variável, descartável ou nos termos de Bauman, fluído.

O termo Indústria Cultural que surgiu em meados da década de 1940 no interior da Escola de Frankfurt nas figuras de Teodor Adorno e Max Horkheimer, concebeu o entendimento de que quase tudo é passível de ser transformado em objeto de consumo através da sua manipulação e uso ideológico. Mas porquê cultura? Cultura é o que de alguma forma cultuamos ou cultivamos em mediação de sentidos e significados que constituem modos de ser e agir. Indústria corresponde em todos os sentidos a produção, mas também a fábricas e mercado, ou seja, algo que é voltado para a criação e o consumo. A Massa corresponde a grande parte da população, senão toda a população.

Logo, Cultura de Massa seria o que toda a população cultua, deseja, consome em decorrência de uma ideologia disseminada em todos os meios, mídias e formas de encantamento. O capitalismo estimulou a população ao exaustivo consumo, criando assim a Industria Cultural como uma forma de garantir esse ciclo de produção e consumo. A Industria Cultural determina o que devemos usar e comer, aonde devemos investir o nosso tempo produtivo e ocioso, tratando o homem como mero consumidor, um objeto que deve absorver o que tem para oferecer. E isso é possível através da cultura midiática, que através das telenovelas, propagandas oferecem modelos que moldam os costumes, valores, educam e manipulam o consumo.

Diante do pressuposto, será que estamos em um mundo tecnológico semelhante ao dos Jetsons, mas vivemos como os Flinstones? Santaella (2003, p. 94) e Bauman (2011) dialogam quando apresentam a fluidez e a velocidade com que acontece a conexão, como é possível um computador recuperar qualquer informação em sua memória, ao mesmo tempo que o homem necessita de lembretes ou alertas em aplicativos para lembrar dos aniversários e encontros com os amigos (que na sua maioria são virtuais)? São reflexões e discussões que não cessam e que se misturam com a produção do conhecimento. Continuarei!


Referências

POSSAMAI, F. V. A técnica e a questão da técnica em Heidegger. Intuito. Porto Alegre, Vol.3 – Nº. 1, 2010.

SANTAELLA, L. Culturas e artes do pós-humano: da cultura das mídias à cibercultura. 2ª Ed. Ed.: Paulus. São Paulo, 2003. Pg. 77 ~113.

Vídeos zygmunt Bauman, disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=POZcBNo-D4A  (acessado em 15.05.17).

Imagem no texto: https://i.kinja-img.com/gawker-media/image/upload/s--ReolSKWu--/c_fit,fl_progressive,q_80,w_636/18thc86jrlgnajpg.jpg (acessado em 15.05.17).

Comentários

  1. Olá Yúrica, gostei muito da maneira que você teceu a sua escrita em articulações e contextos para dar conta das questões políticas e pensar a modernidade líquida no âmbito da cibercultura. O interessante perceber é que não temos mais poderes polarizados, o bem X mal, capitalismo X comunismo, essas relações tornaram-se complexas e de dificil percepção. Assim como na cibercultura a velocidade e gama de informações faz com que tenhamos uma única certeza: a qualquer momento, tudo pode mudar.

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  2. Bacana a associação Yurica, apenas, não podemos ver o digital como um aperfeiçoamento da tecnologia anterior, porque significa uma transformação radical, uma outra forma de registro...

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