Impressões sobre a leitura do livro "Modernidade Liquida" de Bauman


Tempo é dinheiro. Assim início as primeiras impressões que tive ao ler “Modernidade Liquida” de Zygmunt Bauman.
Contextualizando a obra e o autor. Autor sociólogo, contemporâneo Zygmunt Bauman publicou o livro “modernidade liquida” em 2001, em um momento de transição entre o séculos 19 e 20, quando na utilização das tecnologias de massa, reformulações de conceitos e transformações sociais.

São nos conceitos de liquido e sólido referidos por Bauman que nos remetemos a frase “tudo que é sólido se desmancha no ar” apresentado no “Manifesto Comunista” (1847) de Friedrich Engels e Karl Marx. O manifesto comunista discorre sobre as relações entre burguesia e proletariado, em como a burguesia alimentou as transformações sociais a partir da sua relação de desejo entre produto e consumo, reduzindo o homem a produto, por vezes produto de consumo, por outras vezes produto de submissão do trabalho. São produções intelectuais completamente diferentes, dado que foi publicado em épocas diferentes, mas que se encontram pelas expressões metafóricas em comum no que se refere a liquido e sólido no contexto social. Inclusive é passível de afirmação que Bauman tenha bebido de Marx e Engels.

Ao que for liquido está relacionado ao tempo, sendo imprescindível a qualidade liquida, ou seja, carecendo de data e marcação de tempo. O estado liquido quando encontrado com outro estado liquido eles se misturam. Não podem ser contidos porque eles invadem conforme são levados pela correnteza, porém são mais simples de serem moldados.
É essa a impressão que dá do que é liquido: que se dissolve e segue conforme o fluxo, sem muitas opções de escolha sobre o caminho que se quer percorrer, segue conforme a correnteza, por vezes aceitando as escolhas que lhe são feitas, se isentando da responsabilidade e do medo aferidos pela tomada de decisão.

O que for sólido permanece sólido. Com outros sólidos eles não se misturam. São facilmente contidos porque permanecem sólidos. As impressões sobre o sólido acontece da mesma forma, que o fato de ser sólido e imutável então é difícil ter opção de escolha sobre o que se quer.

O Sólido quando encontra com o liquido não se mistura, nem se dissolve, se mantém sólido, contudo fica encharcado e molhado.

Sólido e líquido são metáforas utilizadas para apresentar as fases que a sociedade está vivendo. Em tempo modernos havemos de ser líquidos. A pressa com que consumimos as informações vão ao passo da nossa inreflexão e vamos engolindo, vomitando e repassando as informações que não conseguimos processar em detrimento da fluidez do tempo. Afinal, tempo é dinheiro. Assim sendo, o liquido absorve o sólido, já que o sólido não mais precisa existir. Em sua existência, o sólido, reverbera estagnação e aquele que não se encaixa na modernidade, com seu pensamento rígido e fora da realidade.

Compreendemos a emancipação como liberdade. No capítulo 1, Bauman discursa sobre a liberdade. Sobre como a liberdade é considerada maldição ou benção. Fazendo-nos refletir a respeito das nossas ações quanto a conjuntura social e de propagandas (ou slogans) que tratam a liberdade como inovação, autonomia e independência: seja livre, liberdade é bom – como os americanos colocam: viva em um País livre (ou de pessoas livres), isto é, a liberdade pressupõe a não submissão e o não atendimento de regras, ideologias, posições sociais, etc.
Como conceber a liberdade? Muitos consideram a liberdade como seguir um plano criado por si mesmo, ainda que esse planejamento esteja sob as perspectivas ideológicas, regimentais em atendimento as relações morais e éticas, contudo, foi planejado de acordo com o que se pretende prosseguir, então acredita-se que esse fato da criação o torna livre, quer seja para criar ou copiar um ideal de vida ainda que de acordo com a estreita relações e influências externas existentes. 
Há quem entenda a liberdade como escolhas dentro de uma realidade de algo pré-definido, ainda que esteja pronto é preciso escolher e adaptar alguns detalhes que designam liberdade de escolha.
Temos, ainda, aqueles que se consideram livres mesmo inserido em um regimento que lhe conduz as suas escolhas, das quais não foram escolhidas por ele, mas que se apresentam como opção de bom agrado. De modo que tomar decisão e realizar escolhas são, em muitas vezes, difícil e dolorosa, quer seja num curto espaço de tempo ou para longo prazo. Nesse contexto, quanto maiores as chances de alguém tomar as decisões alheias maior será a satisfação e o impacto de infelicidade que acompanha a liberdade de escolha.
Diante das concepções acerca do que venha a ser liberdade, de fato somos livres? Temos espaço para atuar livremente? Bem, vivemos em uma sociedade normativa, regida por regras, Leis, ideologias, posições sociais e as mais variadas conjunturas que alimentam as relações sociais das quais nos moldam
Lembrei-me do filme “Os idiotas” de Lars Von Trier, em que apresentam um grupo composto por pessoas intelectualizadas cuja ideologia é creditada que o idiota ou a pessoa com doença mental viva em sua consciência libertadora, fazendo o que se quer fazer e no momento que considera pertinente, não se submetendo as regras sociais e nem a sociedade normalizadora, ou seja, vive em liberdade. Mostra situações reais em que as pessoas do grupo buscam “o seu idiota interior” e encarnam a personificação do idiota, fazendo o que querem e da forma como querem, sendo um modo provocativo àquelas pessoas que se comportam de acordo com as normas da boa convivência. O filme retrata uma sociedade que vive de acordo com o que pode-se considerar como normalidade sem grandes enfrentamentos, em que designa o idiota como doente mental, isto é, por considera-lo uma afronta aos bons modos e costumes, por não se adequarem ao comportamento social e serem vistos como pessoas que incomodam a boa convivência.
A atual sensação de liberdade nos atinge em sua forma crítica daquilo que “o que não me incomoda” ou “o que não eu não estou perdendo” está bom para mim. Se “cada um é por si, então Deus é por todos”. Eu posso alimentar o meu desejo, meu ego e viver momentos de prazer, portanto isso já me basta. Em tempos de pessoas liquidas a filosofia de nada importa, para quê pensar? O pensamento e a reflexão me serve de quê?
Foi-se o tempo de pessoas sólidas, em que o Estado atendia as suas angústias e necessidades dos seus cidadãos, no entanto, atualmente o Estado não consegue absorver as preocupações sociais. É mais conveniente e prático que o indivíduo torne-se capaz de suprir suas necessidades. Entre liquido e sólido somo manipulados para sermos o que não nos é permitido pensar ser e sim colocados para acreditarmos que somos. 
Com o entendimento da chegada da modernidade mudou-se a roupagem de como acontece as relações sociais, de como são compreendidas as ações do indivíduo e do cidadão. O fato é que estamos mais ferozes, efêmeros, individuais, por vezes intolerantes e instáveis em nossas relações sociais, ao mesmo tempo, que temerosos mas não nos importamos tanto com os fatos, pois o imediatismo alimenta o nosso ego e satisfaz os nossos desejos mais transcendentais, então por vezes esquecemos a coletividade, os valores e tudo o que nos torna em comum ao todo. 
Portanto, entendemos que a modernidade aproximou e distanciou as pessoas, evidenciou e tornou acessível muitas das inovações tecnológicas, trouxe consigo o descartável, o imediatismo e o “não deixe para amanhã o que você pode fazer hoje!”. A vida tornou-se um piscar de olhos, nada da canção “ando devagar porque já tive pressa” (Tocando em frente – Renato Teixeira), tudo passa rápido demais e nos exige avidez porque senão fica-se para trás.
Com o intuito de tornar claro as nossas discussões a respeito da modernidade liquida, torna-se de interesse assistirmos a entrevista com Zygmunt Bauman realizada pelo canal Globo News e publicada pelo canal do You Tube "Psicanalise e Humanidades" em 17.01.2015.


Referências:  

BAUMAN, Z. Modernidade Líquida. Rio de Janeiro: Jorge Bahar, 2001.

MARX, K.; ENGELS, F. Manifesto do Partido Comunista. 9. ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 1999.

Entrevista com Zygmunt Bauman, disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=GTu_bycoEEwhttps://www.youtube.com/watch?v=GTu_bycoEEw (acessado em 13.05.17)

Comentários

  1. De fato Yurica, a liberdade é um conceito controverso. Concordo com Bauman quando este crítica a ausência de liberdade da Modernidade Líquida, na qual ansiamos por segurança e em nome dela , somos privados de liberdade, de acessar outros espaços considerandos não seguros.

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    1. Olá Gisele.
      Pois é, uma vez liquido somos levados pela correnteza ao modo que querem quer percorramos.

      Muito obrigada por sua visita. Volte sempre :)
      Abraço,
      Yúrika.

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  2. Yurica su texto es muy dinámico. Me llamó la atención cuando usted mencionó la película "Los idiotas” de Lars Von Trier y como la trajo a diálogo con el texto de Bauman y con su propio texto, haciendo una reflexión interesante sobre el concepto de libertad, en cuanto afronta la dualidad de las buenas y malas costumbres, entendidas como malas las que no se adecuan al comportamiento social y por tanto incomodan la buena convivencia. Definitivamente voy a buscar la película que usted menciona, gracias por sugerirla.

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    1. Hola Angela.
      Antes de tudo me desculpe não falar Espanhol.

      Gostaria de poder compartilhar com você o filme "os idiotas", mas não consegui encontrar o link para isso. Lars Von Trier e Bauman são incríveis em suas produções s2
      Certamente você não verá o filme ou lerá o texto com os meus olhos rsrsrs
      E sim, em tempo fluídos somos moldados ao comportamento padrão, ainda que pareça difícil controlar o liquido ;)

      Muito obrigada por sua visita. Volte sempre :)
      Abraço,
      Yúrika.

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    2. Obrigada prezada Yurika! Abraço!

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  3. Bacana trazer a questão da liberdade para a discussão. Deixo uma questão para você pensar: qual o papel do modelo econômico capitalista nessa configuração?

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    1. Olá Bonilla.
      Percebo que o papel do modelo econômico capitalista nessa configuração é oferecer uma noção de liberdade do tipo "tudo posso" ou "yes, we can!" (sim, nós podemos!), constituindo assim, a figura de um sujeito empreendedor que atuando na volatilidade do mercado e das finanças acredita ser capaz e auto suficiente de gerir sua própria vida a partir daquilo que lhe é oferecido, para "o limite é o céu".

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